Surra de looks pra trabalhar, featuring Folake Huntoon

ABfolake

Se tem uma coisa que amo é ver blog de estilo. Sim, de estilo, não de moda. Não tem blogueira mais legal que blogueira autêntica, daquelas que, dando uma passada em 5 looks você consegue visualizar um estilo bem definido. Odeio montações exageradas, excesso de maquiagem, cabelo demasiadamente impecável…gosto de blogueira da vida real, que os looks não parecem editorial de moda, e sim uma marca registrada daquela que os veste.

E eu sigo muita gente maravilhosa nessa linha que falei acima, uma delas é Folake Huntoon, uma novaiorquina do Bronx que é ícone de estilo pra mim:  meus looks pra trabalhar não são mais os mesmos depois passei a segui-la no Instagram.

A meu ver, Folake quebra vários paradigmas dentro da moda: usa cores vibrantes em looks super apropriados pra trabalhar (muita gente defende que looks vibrantes não são elegantes, bullshit); repete roupa (mas recria possibilidades maravilhosas a partir da mesma peça); faz hi-los incríveis, juntando camisa social com saia de paetê. Coisas de quem entende do riscado de verdade.

Poderia fazer uma tese sobre o que acho do ritual de vestir, de compor looks, de misturar referências, mas um resumo é bem apropriado pra quem tá por aqui pelo blog: o ato de vestir é uma expressão de sabedoria, de autoconhecimento, e principalmente de externalizar o que somos e pensamos ao mundo. Um look cheio de estilo é muito além de tecido em cima de tecido, vestindo um corpo; é IDENTIDADE. E o que Folake mostra em seu blog é de uma riqueza cultural, de uma genialidade, que só mostrando os looks dela aqui pra vocês entenderem do que falo. Não são looks com peças diferentes, ou grifadas, que não podemos pagar. Folake faz a magia acontecer a partir do seu guarda-roupas, e dentro de suas possibilidades.

spantry3

spantry5

spantry2

spantry4

spantry1Imagem: reprodução

Se vocês me perguntarem qual das composições acima eu mais amei, sou sincera, não sei dizer de jeito nenhum, achei os looks todos perfeitos. E vocês, curtiram algum em particular?

Amal Clooney, e dicas de looks para usar no trabalho

abamalclooney

Passada nossa maravilhosa infância e adolescência na escola, começa a fase adulta, e com ela o fato de você passar mais tempo no emprego que em casa. Seus amigos de escola, vistos em um período do dia, são substituídos pelos colegas de trabalho, que, de tanto conviver com você viram irmãos; afinal, como eu disse, passa-se mais tempo no trabalho que em casa, pelo menos, do tempo em que a gente fica acordado, boa parte dele é ralando no batente. Pelo menos comigo é assim que funciona. E, para quem não trabalha fardado, um dia de trabalho significa um look, mas não qualquer look. No meu caso, que vivo em ambiente de escritório/órgãos da Justiça, o look deve ser confortável, mas arrumado; confortável porque não vivo intramuros o tempo inteiro, é um tal de vai fazer audiência, sobe em carro alto, anda em asfalto, bota processo em carrinho, sobe escada, desce rampa…, e arrumado porque o dress code do trabalho pede.

Portanto, unindo essas duas necessidades, e buscando inspiração na internet, resolvi montar um painel com a advogada Amal Clooney, a moça que fisgou o coração do George Clooney, e que tem um estilo “mulher trabalhadora da vida real”. Analisando seus looks, percebi que ela não é o tipo de moça que faz a linha socialite, desfilando com looks fakes de trabalho, tipo, Louboutin e Tailleur. Amal ganhou milhares de pontos na minha tabela girl power imaginária, porque mostra ao mundo como é a vida da advogada, os looks inclusive. Óbvio, não dá pra gente andar o tempo todo com saltos vertiginosos, a gente usa mais calça que saia na diária, e bolsa grande impera, pra caber tudo que a gente vai precisar ao longo do dia.

Confesso que me senti feliz por ver em sites de revistas de estilo alguém com quem me identificasse no dia-a-dia. A gente vê tanta gente “de mentira” por aí que fica eufórica quando vê uma diva como Amal batendo a real dos looks de trabalho.

amalclooney1

E os looks “casual friday”? Também são maravilhosos! Porque na sexta-feira adoro ir trabalhar com calça destroyed, e um tubinho super ajuda naqueles dias em que a gente não acorda no humor de se montar (no meu caso, quase todos os dias, cansaço demais, gente rsrsrs).

amalclooneycasual

Para não deixar passar o histórico da Amal, importante narrar que ela é formada em Direito pela Unversidade de Oxford, e tem mestrado na Escola de Direito de Nova York, onde se especializou em direitos humanos, internacional e penal. Fala três idiomas. Reside em Londres atualmente, e trabalha em um dos escritórios mais famosos do país, o Doughty Street Chambers, possuindo em sua carta clientes como Julian Assange, fundador do WikiLeaks. A beesha é lacradora, e George espertinho percebeu logo, e tratou de casar com a moça. Amal é uma it-girl, na minha concepção de it-girl, que inclui Malala, Emma Watson, e P!nk. Diva Glitter Bombação!

 

Trabalho escravo nas fast-fashion: o que você tem a ver com isso?

Ontem começou  uma discussão pra lá de acirrada na internet após a reportagem exibida pelo programa A Liga, sobre o trabalho escravo. Neste mesmo programa, foi divulgado que a fast-fashion Zara se utilizava do trabalho de pessoas que são submetidas a condições análogas à escravidão, para vender – e caro – a moda pelo Brasil. E o que você tem a ver com isso?

Simples, amiga: se você compra, você fomenta. Não é assim com as drogas? Por que não seria com o consumo de produtos da Zara e de outras fast fashion que fazem o mesmo?

Não sou hipócrita pra dizer que não uso Zara, nem consumo Marisa, mas saber dessa notícia me fez criar asco por marcas semelhantes, e acho que ela deve explicações e tomada de providências no sentido de erradicar do trabalho escravo.

E nem me venham dizer que é ingenuidade “não saber” disso. Vivemos num país em que os Direitos Trabalhistas são efetivados, e situações como estas, acreditem, no Brasill, não são regra, e sim exceção, existindo os Tratados Internacionais cujo Brasil é signatário, a Constituição Federal, a lei, o Ministério Público do Trabalho(quem quiser saber o que eles fazem clica AQUI), e a Justiça Trabalhista para corrigir distorções, quando elas surgem. Sou advogada trabalhista e sei bem o que falo.

Muitos dos argumentos utilizados na internet pra defender a Zara foram no sentido de que outras marcas fariam o mesmo…então, vamos divulgar, porque todas, pra mim, estão no mesmo saco, não merecem meu respeito, não merecem meu suado dinheiro.

Para quem quem saber um pouco mais, transcrevi trechos da reportagem que li na ONG Repórter Brasil, que é das organizações mais conhecidas de combate ao trabalho escravo no Brasil. É extenso, mas vale a lida:

Roupas da Zara são fabricadas com mão de obra escrava

Em recente operação que fiscalizou oficinas subcontratadas de fabricante de roupas da Zara, 15 pessoas, incluindo uma adolescente de 14 anos, foram libertadas de trabalho escravo contemporâneo em plena capital paulista

Por Bianca Pyl* e Maurício Hashizume

São Paulo (SP) – Nem uma, nem duas. Por três vezes, equipes de fiscalização trabalhista flagraram trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão produzindo peças de roupa da badalada marca internacional Zara, do grupo espanhol Inditex.

Na mais recente operação que vasculhou subcontratadas de uma das principais “fornecedoras” da rede, 15 pessoas, incluindo uma adolescente de apenas 14 anos, foram libertadas de escravidão contemporânea de duas oficinas - uma localizada no Centro da capital paulista e outra na Zona Norte.

A investigação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP) – que culminou na inspeção realizada no final de junho - se iniciou a partir de uma outra fiscalização realizada em Americana (SP), no interior, ainda em maio. Na ocasião, 52 trabalhadores foram encontrados em condições degradantes; parte do grupo costurava calças da Zara.

“Por se tratar de uma grande marca, que está no mundo todo, a ação se torna exemplar e educativa para todo o setor”, coloca Giuliana Cassiano Orlandi, auditora fiscal que participou de todas as etapas da fiscalização. Foi a maior operação do Programa de Erradicação do Trabalho Escravo Urbano da SRTE/SP, desde que começou os trabalhos de rastreamento de cadeias produtivas a partir da criação do Pacto Contra a Precarização e Pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções.

A ação, complementa Giuliana, serve também para mostrar a proximidade da escravidão com pessoas comuns, por meio dos hábitos de consumo. “Mesmo um produto de qualidade, comprado no shopping center, pode ter sido feito por trabalhadores vítimas de trabalho escravo”.

O quadro encontrado pelos agentes do poder público, e acompanhado pela Repórter Brasil, incluía contratações completamente ilegais, trabalho infantil, condições degradantes, jornadas exaustivas de até 16h diárias e cerceamento de liberdade (seja pela cobrança e desconto irregular de dívidas dos salários, o truck system, seja pela proibição de deixar o local de trabalho sem prévia autorização). Apesar do clima de medo entre as vítimas, um dos trabalhadores explorados confirmou que só conseguia sair da casa com a autorização do dono da oficina, só concedida em casos urgentes, como quando levou seu filho ao médico.

Quem vê as blusas de tecidos finos e as calças da estação nas vitrines das lojas da Zara não imagina que, algumas delas, foram feitas em ambientes apertados, sem ventilação, sujos, com crianças circulando entre as máquinas de costura e a fiação elétrica toda exposta. Principalmente porque as peças custam caro. Por fora, as oficinas parecem residências, mas todas têm em comum as poucas janelas sempre fechadas e com tecidos escuros para impedir a visão do que acontece do lado de dentro das oficinas improvisadas.

As vítimas libertadas pela fiscalização foram aliciadas na Bolívia e no Peru, país de origem de apenas uma das costureiras encontradas. Em busca de melhores condições de vida, deixam os seus países em busca do “sonho brasileiro”. Quando chegam aqui, geralmente têm que trabalhar inicialmente por meses, em longas jornadas, apenas para quitar os valores referentes ao custo de transporte para o Brasil. Durante a operação, auditores fiscais apreenderam dois cadernos com anotações de dívidas referentes à “passagem” e a “documentos”, além de “vales” que faziam com que o empregado aumentasse ainda mais a sua dívida. Os cadernos mostram alguns dos salários recebidos pelos empregados: de R$ 274 a R$ 460, bem menos que o salário mínimo vigente no país, que é de R$ 545.

As oficinas de costura inspecionadas não respeitavam nenhuma norma referente à Saúde e Segurança do Trabalho. Além da sujeira, os trabalhadores conviviam com o perigo iminente de incêndio, que poderia tomar grandes proporções devido a quantidade de tecidos espalhados pelo chão e à ausência de janelas, além da falta de extintores de incêndio. Após um dia extenuante de trabalho, os costureiros, e seus filhos, ainda eram obrigados a tomar banho frio. Os chuveiros permaneciam desligados por conta da sobrecarga nas instalações elétricas, feitas sem nenhum cuidado, que aumentavam os riscos de incêndio.

As cadeiras onde os trabalhadores passavam sentados por mais de 12 horas diárias eram completamente improvisadas. Alguns colocavam espumas para torná-las mais confortáveis. As máquinas de costura não possuíam aterramento e tinham a correia toda exposta . O descuido com o equipamento fundamental de qualquer confecção ameaçava especialmente as crianças, que circulavam pelo ambiente e poderiam ser gravemente feridas (dedos ddas mãos decepados ou até escalpelamento).

Para Giuliana, a superexploração dos empregados, que têm seus direitos laborais e previdenciários negados, tem o aumento das margens de lucro como motivação. “Com isso, há uma redução do preço dos produtos, caracterizando odumping social, uma vantagem econômica indevida no contexto da competição no mercado, uma concorrência desleal”.

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) lavrou 52 autos de infração contra a Zara devido as irregularidades nas duas oficinas. Um dos autos se refere à discriminação étnica de indígenas quéchua e aimará. De acordo com a análise feita pelos auditores, restou claro que o tratamento dispensado aos indígenas era bem pior que ao dirigido aos não-indígenas.

“Observa-se com nitidez a atitude empresarial de discriminação. Todos os trabalhadores brasileiros encontrados trabalhando em qualquer um dos pontos da cadeia produtiva estavam devidamente registrados em CTPS [Carteira de Trabalho e Previdência Social], com jornadas de trabalho condizentes com a lei, e garantidos em seus direitos trabalhistas e previdenciários”, destaca o relatório da fiscalização. ”Por outro lado, os trabalhadores imigrantes indígenas encontram-se em situação de trabalho deplorável e indigno, em absoluta informalidade, jornadas extenuantes e meio ambiente de trabalho degradante”.

A equipe de fiscalização foi composta por dois agentes da Polícia Federal (PF), integrantes do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas – da Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, auditores da SRTE/SP e dirigente do Sindicato das Costureiras de São Paulo e Osasco.

(…)

Blusas e vestidos

A primeira oficina vistoriada mantinha seis pessoas, incluindo uma adolescente de 14 anos, em condições de trabalho escravo. No momento da fiscalização, os empregados finalizavam blusas da Coleção Primavera-Verão da Zara, na cor azul e laranja (fotos acima). Para cada peça feita, o dono da oficina recebia R$ 7. Os costureiros declararam que recebiam, em média, R$ 2 por peça costurada. No dia seguinte à ação, 27 de junho, a reportagem foi até uma loja da Zara na Zona Oeste de São Paulo (SP), e encontrou uma blusa semelhante, fabricada originalmente na Espanha, sendo vendida por R$ 139.

A oficina funcionava em um cômodo de uma casa pequena – na parte de cima de um sobrado. Seis máquinas de costura ocupavam uma pequena sala. Dois quartos abrigavam todos os trabalhadores, inclusive casais com filhos. O espaço era dividido por guarda-roupas e panos. No banheiro, não havia água banho quente, pois o chuveiro estava desligado para reduzir o consumo de energia elétrica, que era totalmente destinada à produção.

A adolescente de 14 anos tomava conta das duas crianças enquanto as mães trabalhavam. Ela ajudava também na limpeza da casa e no preparo das refeições. No Brasil desde 2010, não está estudava. Seu irmão juntou dinheiro e foi buscá-la na capital boliviana de La Paz.

A fiscalização lacrou a produção e apreendeu parte das peças, incluindo a peça piloto da marca Zara. As máquinas de costura também foram interditadas por não oferecerem segurança aos trabalhadores.

Da outra oficina localizada em movimentada avenida do Centro, foram resgatadas nove pessoas que produziam uma blusa feminina e vestidos para a mesma coleção Primavera-Verão da Zara.

A intermediária AHA pagava cerca de R$ 7 por cada peça para a dona da oficina, que repassava R$ 2 aos trabalhadores. Peça semelhante a que estava sendo confeccionada foi encontrada em loja da marca com o preço de venda de R$ 139.

Uma jovem de 20 anos, vinda do Peru, disse à reportagem que chegou a costurar 50 vestidos em um único dia. Em condições normais, estimou com Maria Susicléia Assis, do Sindicato das Costureiras de São Paulo e Osasco, seria preciso um tempo muito maior para que a mesma quantidade da difícil peça de vestuário fosse toda costurada.

Há 19 anos no Brasil, a boliviana que era dona da oficina teve todos os seus oito filhos (entre 5 meses e 15 anos) nasceram aqui. Ela sonha em dar um futuro melhor aos rebentos, para que não tenham que trabalhar “nas máquinas, com costura”. “Todo mundo na minha terra que vinha para o Brasil dizia que aqui era bom. E eu vim”, contou a senhora.

Parte da produção foi apreendida, assim como as peças pilotos, que carregavam instruções da Zara de como confecionar a peça de acordo com o padrão definido pela varejista multinacional. “Isso demonstra a subordinação das oficinas e da Aha em relação à Zara”, realça Giuliana. A oficina e um dos quartos, onde dormiam dois trabalhadores e duas crianças, foram interditados. A fiação elétrica estava totalmente exposta e havia possibilidade de curto-circuito.

Os trabalhadores declararam trabalhar das 7h30 às 20h, com uma hora de almoço, de segunda à sexta-feira. Aos sábados, o trabalho seguia até às 13 h. Um trabalhador chegou a relatar que há dias em que o trabalho se estende até às 22h.

O local funciona em um sobrado de dois andares (foto ao lado), com muitos cômodos. O maior deles, onde os trabalhadores passavam a maior parte do dia, acomodava as máquinas. Os cinco banheiros estavam muito sujos. Somente três possuíam chuveiros, mas todos também estavam desligados.

Um dos trabalhadores, irmão da dona da oficina, está no Brasil há sete anos e já possui os documentos e até CTPS. “Eu trabalho na costura desde que cheguei. Mas eu queria mesmo era trabalhar com música. Eu consegui comprar algum equipamento já”.

Outro jovem, de 21 anos, disse que não gosta muito do trabalho porque é “cansativo”. Ele recebe, em média, R$ 500 por mês. “Eu vou voltar para a Bolívia. Queria estudar Turismo e trabalhar com isso. A costura é só para sobreviver”, projetou.

A Zara foi avisada do flagrante no momento da ação pelos auditores fiscais e convidada a ir até a oficina de costura, mas não compareceu.

No dia seguinte, compareceram à sede da SRTE/SP dois diretores, que não quiseram participar da reunião de exposição dos fatos,. Até o advogado da empresa foi embora sem ver as fotos da situação encontrada. Somente duas advogadas da intermediária Aha (que no início da reunião se apresentaram inicialmente como advogadas dos donos das oficinas e até dos trabalhadores) participaram da reunião com os auditores fiscais. A empresa não providenciou sequer alimentação às vítimas, que ficou a cargo do sindicato da categoria.

(…)

Calças

O primeiro flagrante de oficina em condições degradantes com pessoas costurando peças para a Zara se deu em Americana (SP), interior de São Paulo, no final de maio. Motivada pela denúncia de um trabalhador, a ação foi realizada pela Gerência Regional do Trabalho e Emprego (GRTE) de Campinas (SP), pela Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região (PRT-15) e pela Polícia Federal (PF). A Vigilância Sanitária de Americana foi chamada a atuar e interditou os alojamentos. Os empregados não foram retirados por causa da inexistência de abrigos para este fim no município.

Foram encontrados 52 trabalhadores, sendo cinco deles brasileiros. O restante do grupo era formado por bolivianos. Na oficina de Narciso Atahuichy Choque, os empregados eram submetidos à jornada exaustiva e expostos a riscos. Além disso, muitos trabalhadores foram aliciados na Bolívia e chegaram ao Brasil devendo o valor da passagem.

O alojamento e o local de trabalho estavam em condições degradantes e insalubres. Havia risco de incêndio devido à sobrecarga nas precárias instalações elétricas. Poderia haver explosão, por causa dos botijões de gás de cozinha nos quartos.

A oficina funcionava em um imenso galpão de dois andares. No andar superior, ficavam os alojamentos e a cozinha. No inferior, as máquinas. A fiação elétrica estava exposta e o local era muito sujo. Havia um bebedouro, porém somente um copo plástico para todos dividirem. Os pequenos quartos abrigavam famílias inteiras e grupos de até cinco trabalhadores. Alguns cômodos tinham alimentos espalhados, armazenados de forma inadequada.

Um grupo de trabalhadores costurava uma calça jeans da Coleção Primavera-Verão da Zara. Cada trabalhador fazia uma parte da peça e o valor de, em média, R$ 1,80, era dividido pelo grupo todo, composto por sete pessoas. O dono da oficina afirmou que trabalha há cinco anos com a intermediária Rhodes e que aproximadamente 70% da sua produção é destinada à empresa. A oficina é especializada em calças e bermudas. Uma funcionária da Rhodes costuma visitar e verificar as condições e o ritmo de produção da oficina.

Após a fiscalização, a Rhodes pagou as verbas rescisórias de cada trabalhador. A fiscalização foi à nova oficina de Narciso, em 26 de junho, e constatou melhorias. Entre elas, o registro de todos os funcionários, regularização migratória, submissão de costureiros a exames médicos.

De acordo com auditores fiscais  da GRTE de Campinas (SP), houve adequação da instalação elétrica e melhora do espaçamento entre as máquinas. Os trabalhadores agora utilizam cadeiras com melhores condições ergonômicas e de conforto. A iluminação também foi melhorada e os equipamentos de incêndio estão todos válidos e sinalizados. As saídas de emergência foram demarcadas. “Com a mudança da oficina e a suspensão da interdição, grande parte dos trabalhadores voltaram a trabalhar de forma regular nas novas instalações da mesma oficina”, discorre a auditora Márcia Marques. Foram lavrados 30 autos de infração contra a intermediária Rhodes pelas irregularidades encontradas. Nove autos se referem às questões trabalhistas e as demais infrações estão relacionadas à saúde e segurança do trabalho. A reportagem não conseguiu entrar em contato com a Rhodes pelos telefones da empresa.

Made in Brazil

Em resposta a questões sobre os ocorridos enviadas pela Repórter Brasil, a Inditex – que é dona da Zara e de outras marcas de roupa com milhares de lojas espalhadas mundo afora – classificou o caso envolvendo a AHA e as oficinas subcontratadas como “terceirização não autorizada” que “violou seriamente” o Código de Conduta para Fabricantes.

De acordo com a Inditex, o Código de Conduta determina que qualquer subcontração deve ser autorizada por escrito pela Inditex. A assinatura do Código do Conduta é obrigatória para todos os fornecedores da companhia e foi assumido pelo fornecedor em questão (AHA).

A empresa disse ter agido para que o fornecedor responsável pela “terceirização ão autorizada” pudesse “solucionar” a situação imediatamente, assumindo as compensações econômicas dos trabalhadores e comprometendo-se a corrigir as condições de trabalho da oficina flagrada com escravidão.

Haverá, segundo a Inditex, um reforço à revisão do sistema de produção da AHA, assim como das outras empresas no Brasil, para garantir que não exista outro caso como este. “Estamos trabalhando junto com o MTE para a erradicação total destas práticas que violam não só nosso rígido Código de Conduta, como também a legislação trabalhista brasileira e internacional”.

Em 2010, a Inditex produziu mais de 7 milhões de unidades de peças no Brasil, desenvolvidas, segundo a empresa, por cerca de 50 fornecedores que somam “mais de 7 mil trabalhadores”. O total de peças que estava sendo produzido irregularmente (algumas centenas de peças), adicionou a Inditex, representa “uma porcentagem inferior a 0,03%” da produção do grupo, que é um dos maiores do mundo no segmento, no país.

A maior parte dos produtos do grupo que comanda a Zara é feita na Europa. Metade é confeccionada em países como Espanha (onde a empresa mantém fábricas próprias) ou Portugal. Outros 14% são fabricados em outras nações europeias como Turquia e Itália. A produção no Brasil corresponde a algo inferior a 1% do total. Em 2010, 30 lojas da Zara já estavam em funcionamento no país. São cerca de 2 mil profissionais contratados diretamente.

“No que se refere à presença comercial, o Brasil é o terceiro mercado mais importante da Inditex no continente americano, ficando atrás somente dos Estados Unidos e do México”, colocou a empresa, que manifestou intenção de não abandonar a produção no país. “A Inditex prevê seguir crescendo no Brasil com a abertura de novas lojas a curto, médio e longo prazo”.

*A jornalista da Repórter Brasil acompanhou a fiscalização da SRTE/SP como parte dos compromissos assumidos no Pacto Contra a Precarização e pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções

Eu, como escritora desse blog e consumidora me sinto no dever de informar a vocês a realidade, e dar minha opinião, porque blog é página pessoal, mas não pretendo impor isso a ninguém, até mesmo quem sou eu, né?

Porém, me digam: expor pessoas ao trabalho escravo, e violar direitos humanos que lhes são inerentes, tudo em nome da moda e do consumo, vale a pena?