Pra não pagar mico na costureira: miniaula sobre tecidos

Esse post originalmente foi feito por mim para Sandrinha, do blog Fashion Food and Arts, que inclusive o publicou semana passada. Mas, como vocês pedem muito que eu explique algo sobre tecidos, resolvi reproduzir por aqui, a assim tentar tirar algumas dúvidas pelos comentários.

Eu considero essa humilde e rasteira explicação sobre os tecidos de utilidade pública, pois assim a gente não fica tão na dúvida na hora de comprar material pra costureira fazer aquela peça bapho que a gente tanto idealiza e quer fazer.

Quero deixar claro aqui que não sou tão a favor de que a gente mesmo compre tecidos pra levar à costureira; desaconselho, pelo que passei a minha vida inteira escutando de titia: a cliente não sabe a metragem pra uma peça, a vendedora manda pouco tecido, e quando chega na costureira quer que ela faça milagre com um pedacinho de pano.O ideal é deixar que ela compre, porque só ela sabe o que fazer, como fazer, e quanto ela precisa pra fazer, né mesmo? A César o que é de César, só compre se você tiver conhecimento da metragem correta pra determinada peça. Caso contrário, deixe isso pra própria criadora, tá?

Todavia, vamos lá, esse post é pra ensinar um pouquinho sobre os tecidos, e para tanto, separei alguns que tenho aqui em casa pra mostrar pra vocês.


Laise/cambraia bordada: muita gente chama o laise de cambraia bordada. Na minha opinião, é um dos tecidos mais lindos do mundo. Trata-se de um algodão leve, vazadinho, bordado. Geralmente o metro dele é bem salgadinho, também pudera, um trabalho artístico desses, de bordar uma peça inteira, não deve custar barato, mesmo.

Chamois: é feito com qualquer matéria-prima acabada em flanelagem. Parece um veludo, uma camurça, só que fininho, fluido. Dá pra usar no calorzão, pois é leve.

Chambray: O chambray é tipo um jeans, só que bem mais levinho. Isso acontece devido ao ligamento tela de gramatura média. O chambray, na minha opinião, dá de capote no jeans, pelo menos pra nós mulheres. Por ser mais leve, deixa nossa pele respirar.

Cetim: o cetim é assim chamado por ser uma homenagem a Zaitum, região da China de onde o tecido se origina. É brilhante, de seda, com trama fechada, parece catarro em parede(retirado a pedido de leitora que sabe tudo, mas não sabe brincar). O segredo na compra do cetim é identificar o cetim bom, do ruim. O fosco – e com stretch – é o mais delicado, mais bonito, e mais caro. Portanto, amiga, se você quiser usar uma regatinha de seda ou cetim, compre um cetim bom, pra não ficar parecendo que rasgou as vestes do palhaço Facilita e fez uma “regatxeeenha-tendência”.

Malha flamê: que não se lembra das camisetas e regatas “podrinhas”? O tecido não parecia um “arranhado” “amarrotado”? Aquela é a malha flamê, gostosa de usar pra caramba.

Lycra®:a lycra é bem conhecida. Geralmente utilizada para confecção de bíquinis, é patenteada pela Du Pont, e pertence à classificação genérica elastano das fibras sintéticas (conhecida como Spandex na América do Norte). Conhecida por suas propriedades de alongamento e recuperação enobrece tecidos, adicionando novas dimensões de caimento, conforto e contorno das roupas. É a rainha da moda praia, justamente por ser resistente ao sol e água salgada, e retendo sua característica flexível no uso e com o tempo.

Linho: tecido rústico, de fibra vegetal surgida do talo do linho. Acho babado uma calça de linho, muito elegante, tipo peça-chave de qualquer guarda-roupa, sabem?

Liganete: A liganete lembra muito a viscolycra, não fosse ela mais fininha, com mais caimento, menos elasticidade, geladinho, e com toque mais seco. A diferença no toque é marcante, a gente identifica logo a liganete da viscolycra.

Renda de algodão: como não poderia deixar de ser, a onda de utilização de matérias- primas naturais também contaminou a confecção de tecidos, e tem sido muito freqüente a venda de rendas 100% algodão. Acho mais bonita que a renda mista, já que a peça fica com jeito de regional, e fosca.

Renda sintética: A renda é aquele tecido vazadinho, que tá na boca do povo ultimamente. A sintética não tem, ou tem pouquíssimo – algodão na sua composição. Seu toque é seco, e ela às vezes tem um pouco de brilho. Culpa da linha com a qual é tecida. É a mais comum.

Tafetá: Feito de seda ou poliéster, era utilizado antigamente para forro, e agora foi pra o lado de fora das peças, sendo utilizado para fazer vestidos de festa e afins. O primo-irmão do tafetá é o xantungue, mais grossinho e utilizado para peças mais estruturadas. Na língua persa, a palavra entrelaçar ou tecer, se dizia “Taften” e depois “Taftah”. Esta terra, juntamente com a China, é considerada um dos berços da seda e dos tecidos.

Seda mista: A seda mista é infinitamente mais barata que a seda.  Justamente por ser mista(acetato+viscose), bem sintética, toque seco, e um pouco mais durinha, o caimento de certas peças pode ficar comprometido, dependendo do fabricante. Algumas pessoas a conhecem por “toque de seda”, mas o certinho é “seda mista”.

Tricoline: Confeccionada com fio 40×40, e, por isso, tem o toque mais delicado que o da popeline, apesar de seu aspecto ser bem semelhante a este tecido. Sobre a popeline, bom saber que ela é um tecido feito com algodão, com fio mais grosso e, portanto, com o toque um pouco mais áspero que a tricoline.

Viscose: A viscose é um tecido fabricado à base de celulose regenerada. Macia, absorvente e de bom caimento. A gente pode ver a viscose em vestidos longos, saias longas, shorts, saídas de praia, camisas…é um tecido muito versátil!

Viscolycra: Como boa palavra composta por aglutinação, a viscolycra é a junção da viscose com a lycra, certo? Errado, a viscolycra nada mais é que a fusão da fibra de elastano com o fio da viscose, formando aquele tecido fluido, elástico, geladinho, gostoso de usar…e que pede um corpo em forma quando a peça é ajustada, já que denuncia todas as nossas celulites e gordurinhas localizadas. Prefiro para peças amplas, como saias longas, vestidos que não marquem o corpo, cozy, coisas assim. A melhor viscolycra é a que não cria bolinhas, e é chamada de viscolycra “fio torcido”.

Musseline: O musseline é um tecido levinho, transparente, com toque macio e fluido, desenho tafetá, fios de seda, com torções elevadas. Algumas musselines são chamadas de crepe chiffon. Esse meu tecido eu acho massa, porque de um lado é opaco, e do outro, tem uma camada glitterizada discreta, na verdade parece um brilho molhado, ainda não tenho ideia do que farei com esse tecido, talvez uma regata dupla face.

New Spam: Sabe aquele blazer chique, de corte bacana, sem ser grosseiro ( por grosseiro entenda-se terno com jeito de recepcionista de clínica, nada contra a classe, e sim contra o uniforme)? É o new spam, perfeito para peças em alfaiataria, já que segura a modelagem de peças do tipo. E o preço é muito bom.

Sarja: a sarja é um tecido trançado de fio penteado. Popularizada pela utilização em fardamento militar, passou a ser usada para confeccionar vestidos, calças flared, ternos, só que com fibra mais leve. Gosto de uma variação da sarja, a sarja acetinada, que tem um toque macio, parecido com o de uma camurça.

Piquet: o piquet parece um brim, só que tem uns losanguinhos em alto relevo. A gente costuma ver em peças de criança, mas recentemente a Dress To confeccionou vários vestidos em Piquet. Fica bonito, dependendo da espessura dele, já que tem uns bem grossos, impossíveis de se transformar em peça para usar…são grosseiros demais.

E é isso, espero que vocês detonem na próxima feirinha em loja de tecidos, e lembrem dos conselhos que eu dei acima, são de ouro!

Otimizando, barateando, estilizando…

Acho que Karl Marx bem acertou quando disse que “o homem é produto do meio em que vive”. Cresci entre tecidos, modelos, revistas de moldes, e clientes loucas por peças novas, e isso meio que entrou, por osmose, na minha cabeça.

Ver tecidos me fez querer tecidos, muito embora no momento da compra eu ainda nem tenha decidido o que quero fazer com ele. E foi assim que meu acervinho foi crescendo, e na salinha de titia tenho uma prateleira própria, cobiçada pelas clientes que aqui chegam. As peças só tomam corpo de vez em quando, o que me levou a querer costurar também, e já até dei saída a alguns cortes, uns 6 ou 7, mas a pilha ainda tá grande, bem grande porque, óbvio, sem curso nenhum, ainda tem muita coisa que preciso aprender com calma. Paciência é o segredo, tanto para o aprendizado, quanto para as brechas que titia arranja pra fazer algo pra mim. Sai mais barato, sai mais bonito, e exclusivo.

E hoje vagando pela internet achei uns looks tão legais, que resolvi escolher uns tecidos com a mesma ideia das padronagens mostradas e fazer pra mim. Mesma idéia, e não mesma estampa. Ainda não sei se é definitivo, mas tô super inclinada a usá-los!

Vamos ao primeiro:

Imagem: stockholm streetstyle

Eu simplesmente amei esse vestido. E para fazê-lo, e não ficar quente, escolhi uma estampa igualmente divertidinha, com fundo branco, pra trazer um frescor a esse verão louco que vem que vem que vem com tudo. Borboleta, coração e flor, tudo junto e misturado é muito amor! Adoro!

Imagem: stockholm streetstyle

Esse tecido eu comprei num devaneio meu. Achei a estampa tão plástica, parecendo um quadro de Van Gogh(como esse AQUI), e comprei sem nem passar por minha cabeça o que poderia fazer com ela. Deixei quietinha, e hoje apareceu um emprego massa pra o corte, essa sainha fofa de morrer!

Por fim, vestidos fofos, ah, os vestidos fofos de verão! Tenho duas opções de tecidos para a terceira peça:

Se os modelitos saírem do mundo ideal para o mundo real, faço questão de vir mostrar aqui pra vocês.

Ah, e como eu sei que perguntas surgirão sobre a procedência dos tecidos, digo de antemão que são da Casa Cardoso alguns, e outros da loja Mascate. Não comprei todos de uma vez, por isso alguns podem não ser mais encontrados. Só ter calminha porque sempre chega a estampa de novo, só ficar ligada nas lojas.

E é isso, vou ficando por aqui, e de antemão pergunto: esse post ficou chato, longo, ou vocês gostam de falar sobre essas coisinhas?

Cartas a uma jovem costureira, p.3: os tecidos

Quer me fazer acordar cedo num dia de sábado? Diga: “vamos comprar tecidos”? É esse o estratagema de Tia Alice quando precisa comprar alguns tecidos pras clientes, isso desde meus 10 anos até hoje. É que eu adoro, fico perdida no meu daquele tantão de tecido empilhado, ou daqueles rolos um por cima do outro das malharias. Fascinada, é como eu fico. E conheço todos: popeline, tricoline, jacquard, oxford, brim, cetim, tafetá, viscose, cambraia bordada, two way, new spam, piquê, renda, etc. tudo apenas num toque. Mania herdada da minha docente.

E as malhas? Ah, as malhas: viscolycra fio torcido (a melhor, que não cria bolinha; a ruim é a radiosa), ponto roma, liganete, helanca, malha missoni, malha penteada, canelada, PV, suplex, suplex aeróbico…tudo isso faz parte do meu cotidiano.

O ato de comprar tecidos, pra mim, é como abrir uma caixinha de idéias: fico imaginando milhões de coisas que posso fazer com os cortes que vejo, viajo, saio de mim, vou pra outro mundo. É preciso titia ficar gritando “vem cá, menina” dentro da loja, pra eu voltar ao meu corpo e ir combinar os cortes que ela deve levar pras clientes. Somos uma equipe. Fato.

E hoje eu venho mostrar pra vocês alguns cortes fofos, uns meus, outros de clientes, que encontrei recentemente na loja de tecidos mais bacana de Natal, a Casa Cardoso. Tô numa vibe frutas, borboletas, e florais. Coisa de quem vive a primavera e o verão dentro de si o ano inteiro.

Dos tecidos acima, só são meus três cortes: o de hibiscos(aquelas flores muito presentes em bermudas de surfista) da primeira foto, o de maçã com morangos, e borboletas/insetos, um encostadinho ao outro. Ainda não pensei com calma o que farei com eles, mas assim que ficarem prontos eu mostro pra vocês.

Já da imagem abaixo, tenho mais alguns: os dois primeiros da primeira imagem, o de bolsinhas, e o de moranguinhos com fundo preto da segunda imagem. Na verdade, são de clientes, mas sempre incluo uma metragem deles pra mim, geralmente um metro, um metro e vinte.

E o corte abaixo eu achei a cara de Ana Lu, do blog Oxente Menina, que tem suas costureiras do coração, e não abre mão de uma estampa divertida pra fazer suas camisas e casaquinhos(marca registrada dela):

Vão dizer que não parece com o que ela usou no chá de bebê da amiga dela? (clica AQUI pra ver a estampa de Ana Lu)

Pra quem ficou curiosa sobre o destino do tecido acima, ele se transformou em um casaquinho lindo pra uma cliente. Quando sai o meu? Difícil prever…

Ah, meninas de Recife, no Oxente Menina, tem um guia legal que Lu fez sobre compra de tecidos, clica AQUI, pra ver.