Sobre consumo de moda e a crise econômica mundial

Não adianta fingir que não é com a gente. A globalização tem como um de seus efeitos fazer com que uma crise que se inicie na Grécia, por exemplo, atinja toda a Europa, Estados Unidos, e respingue no Brasil. É uma das partes ruins dessa onda toda de ter um mundo globalizado, e majoritariamente capitalista. Se o Japão quebra, a impressão é de que ele estivesse caindo num abismo agarrado em nossas mãos; inevitavelmente, se a gente não for junto com ele, pelo menos um arranhão fica. Mais ou menos assim.

Só pra vocês terem uma ideia, no quesito vestuário, o preço aumentou mais que o dobro da inflação este mês. As roupas estão mais caras nesse fim de ano, prezadas leitoras.

E aí que vem o dilema: como parar de consumir quando fomos doutrinados a fazê-lo de forma incessante a vida inteira? É possível consumir “moda” em tempos de crise? De que maneira?

A resposta é afirmativa, mas não é tão simples quanto parece. Há uma série de medidas que podemos tomar para passarmos ilesas por uma crise econômica mundial – seja ela uma tsunami ou marolinha – ou até mesmo uma autocrise econômica(quando a gente decreta nossa insolvência, quem nunca?).

Listei algumas:

- Uma das primeiras atitudes é ser visionária. Ter habilidade de prever tendências, ou até mesmo de não se importar com “moda” quando se tem um estilo consolidado é um segredo que evita que nos tornemos escravas da lógica mercadológica. Pensar sempre à frente nos permite economizar de maneira considerável. Já cansei de comprar em liquidação coisas que só vêm “estourar”, duas, três temporadas depois. Não me importo muito com moda, e vocês já até devem ter visto isso, quando apresento a vocês peças minhas que adquiri há 4, 5 anos ou até mais, e agora se fala muito. Aconteceu com o crochê, aconteceu com calças com zíperes na barra, e vai acontecer certamente com muita peça minha que compro em liquidação sem pensar em “tendência”;

- Se valorizar é muito mais importante que simplesmente seguir o humor das passarelas. Leia, consuma informação de moda, seja em blogs, seja em revistas especializadas, faça o filtro, e veja o que é realmente se adapta ao seu corpo, e sua personalidade. Comprar muito e comprar caro nada tem a ver com se vestir bem. Tem a ver com fomentar uma crise mundial, que tá longe de ter um fim;

- Caso opte por consumir algo caro, faça com inteligência. Consuma o que possa servir como peça-chave de um look, e valorizá-lo instantâneamente. Por exemplo, um sapato mais caro pode dar vida a uma camisetinha de R$17,90, e um jeans de R$59,90. E sim, as camisas pólo da Lacoste duram mais que as pólos da Riachuelo, basta fazer o seguinte teste: compre as duas, e lave sempre. Qual delas se manteve intacta? Pois é, no preço da pólo Lacoste tá a qualidade do material, que resiste a várias lavagens sem perder cor e esgarçar, e não somente marca. Já no caso do esmalte Chanel, este descasca do mesmo jeito do esmalte da Colorama, não vale a compra;

- Tá sem grana pra comprar alguma peça mais cara? Busque imitações, mas de qualidade. Tá, pode parecer difícil em meio a Birkins e PS’s de moletom, mas é totalmente possível. Veja acabamento, fechos, material. Se tudo estiver OK, a compra é válida.Vejam bem: não falo de falsificações, com logomarca famosa, mas de imitações, modelos parecidos, mas de material bom. E se serve de consolo a diva Coco Chanel já dizia que ter um colar de pérolas falso é válido, pois servia pra usar no dia a dia. Já o colar de pérolas verdadeiras eram para ocasiões especiais. Sabe tudo!

- Essa é batida, já disse e repito: costureira, minhas amigas, costureira…sei que é difícil achar alguma boa, mas quando achar, se apegue, trate bem, sirva café na cama. Ok, esse último é dispensável, mas de resto, pode ter certeza que você vai gastar menos, e sair tão linda quanto aquela amiga abastada que só usa Le Lis Blanc pra cima. Certeza.

- Investir em peças de boa qualidade também implica em menos peças. Portanto, se quer comprar algo caro, veja se realmente vale o quanto custa, se o acabamento é bom, se o corte é impecável, se você se vê usando essa peça alguns anos depois…tudo isso deve ser avaliado antes de tirar um rim pra comprar aquela calça leeenda de viver, ou aquele casaqueto que ganhou seu coração. Lembrem: é melhor ter um guarda-roupas com poucas peças, mas de qualidade e que combinadas criem um visual surpreendente, do que ter um armário repleto de coisinhas atreladas “à moda do dia”;

- Vale o investimento: lingerie boa, que suba os peitchones, que não deixe o bumbum caído, que ajude no caimento da peça…uma boa lingerie ajuda, e muito, a peça que vai por cima;

- “Mas Rose, eu quero seguir as tendências…”. Tá permitido, desde que se use a regra do 70/30. Consiste em abastecer 70 por cento de seu guardar-roupas de peças clássicas, e apenas trinta por cento com o que se mostra em desfiles, que recebem a rubrica “trendy”, expressão essa que odeio usar. Isso evita tornar seu armário em um arquivo de cada temporada de moda, e por outro lado, o abastece de peças que certamente durarão várias estações.

- Eu já até falei em outro post, mas investir em acessórios é uma sacada genial pra multiplicar seus looks. Quem quiser saber mais, só acessar o post AQUI.

- Ser do contra também super funciona na moda. Todo mundo tá usando minissaia? Saque sua saia longa do guarda-roupas? É bolsa pequena que todo mundo quer? Saia linda com sua maxibolsa. É um exercício que ajuda a gente a se desvencilhar das “tendências”, encontrando, assim, um estilo próprio. Evita também a banalização de uma tendência. Nem te digo que hoje em dia, quando faço uma digressão, acho feia de doer aquela bolsa desbotada “motorcycle” da Balenciaga, que todo mundo fez tanto frisson certa vez, só porque os blogs de moda ditaram que era “trendy”. Ela tem uma eterna cara de bolsa falsificada. Prefiro uma nacional, de acabamento bom, e modelo bonito;

Pode parecer bobo, mas quando for à caça de peças para incrementar seu guarda-roupas, vá com uma boa lingerie, sapato confortável e com um saltinho, cabelo no grau, e um pouquinho de maquiagem. Ajuda a criar o efeito da peça extramuros do shopping. Verifique acabamento, conforto, qual ao efeito da cor da peça sobre seu rosto…tudo isso é muito válido, e poupa muita grana, pois evita que você leve pra casa algo que não saia do seu guarda-roupas. Agindo assim, você acaba levando somente o que tem “certeza” que tá bom;

Bem, essas são algumas das táticas que poderão nos ajudar a enfrentar os efeitos dessa crise que se instalou, sem precisar cortar totalmente nossos gastos com roupas. Somos mulheres, e fica quase que impossível renunciar à vaidade que nos é inerente, juntamente com o fato de que gostamos de ir ao shopping, e gastar um dinheirinho com alguns agrados. Pondo em prática algum dos pontos acima a gente consegue conciliar as duas coisas, e sai sã e salva dos tempos de vacas magras.