A menininha maquiadora e algumas reflexões.

“Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.

Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.”

Estatuto da Criança e do Adolescente

Certo dia eu tava lá pelo Twitter, onde as coisas acontecem, e vi as meninas comentando sobre a menininha maquiadora, que é a nova sensação do Youtube. Corri pra assistir e até achei fofinho, sob um olhar bem superficial. Não parei para pensar na nocividade daqueles singelos vídeos postados pela mãe dela.

A maquiadora mirim em um de seus tutoriais

Ocorre que, matutando mais um pouco, e lembrando-me de casos bem parecidos – os da mini celebridades – percebi que o buraco é mais embaixo. Bem mais embaixo.

Exemplos? Que fim tomou Simony? Macaulay Culkin? No que se tornaram as irmãs Olsen? E Lindsay Lohan? Digitem na internet esses nomes e vejam vocês mesmas…

E o que dizer da rotina torturante das Pequenas Misses, que inclui tomar Red Bull várias vezes ao dia para se concentrar nas lições de desfile que lhe são ensinadas, usar prótese dentária quando cai o primeiro dente, fazer sobrancelhas, bronzeamento artificial, e até podem aplicar Botox, tudo por causa de uma faixa e uma coroa? Será que essa vontade é realmente delas? Brincar de boneca, correr pela rua não seria mais atrativo para essas menininhas?

Querida leitora, não tenho como não culpar os pais dessas meninas, tresloucados que não conseguem vislumbrar, ofuscados pela loucura midiática e pela sede por dinheiro, que suas filhas são fortes candidatas a lotar futuramente as cadeiras dos psicanalistas, e clínicas de rehab. Serão futuras mães precoces, viciadas em drogas e álcool, violentadas pelo marido, bulímicas, anoréxicas…certo que algumas se salvarão, mas como reorganizar a bagunça gerada na cabeça de um infante desses com tamanhas cobranças fúteis durante sua infância?

Levando-se em conta que meninas de 4, 5 anos não têm autonomia para decidir sobre suas vidas, apreendo que vem de seus pais essa injeção de vaidade, somada a várias cobranças no sentido de se atingir a perfeição física, de ser a maior decoradora de textos, ou seja, de impõe um desejo/capricho, que é seu, antes mesmo de ser da criança. A exposição é desnecessária. Expor os filhos na mídia é o mesmo que atirar um ser humano aos leões numa arena. É violar a integridade física, psíquica e moral desses pequenos que, para ser grandes seres humanos precisam, antes de tudo, de uma criação saudável que inclui o direito de brincar, de estudar, e compartilhar suas aventuras com outros coleguinhas.

Sinceramente, eu tenho medo de ter, e criar meus filhos numa sociedade que distorce valores, e onde as aparências são bem mais preciosas que honra, honestidade, e inteligência. E acho que a reflexão nesse blog, de moda é beleza, é válida. No meio de tantos que veicularam essa menininha ensinando a maquiar, e acharam lindo, não quero cair nesse estratagema maléfico criado pela mãe dessa pequena (que é representante de uma linha de cosméticos) e fomentar uma babaquice tão extrema que é atirar sua filha à cova midiática, sem mensurar as consequências destes atos.

Pequenas Misses? Tô fora!

E vocês? Acham que tô exagerando? É só nuvem passageira, ou isso tende a aumentar?

E pra não cair na monotonia do post, o trailer do filme Little Miss Sunshine vem muito à calhar. Recomendo o filme, principalmente a cena dela com o avô, em que ela pergunta se é bonita, e o avô responde que sim, que  ela é linda, tem cérebro, personalidade…uma bela crítica ao conceito de beleza dos concursos da espécie.

Tá em inglês, mas fica de incentivo pra vocês assistirem o filme com legenda, tá?