Outdoor humano? Não, obrigada.

Comprei uma bolsa de grife
Mas ouçam que cara de pau.
Ela disse que ia me dar amor
Acreditei, que horror
Ela disse que ia me curar a gripe
Desconfiei, mas comprei
Comprei a bolsa cara pra me curar do mal
Ela disse que me curava o fogo
Achei que era normal
Ela disse que gritava e pedia socorro
Achei natural

Ainda tenho a angústia e a sede
A solidão, a gripe e a dor
E a sensação de muita tolice
Nas prestações que eu pago
Pela tal bolsa de grife

(Vanessa da Mata, Bolsa de Grife)

“Era uma vez uma mocinha sem amigos e sem namorado, que um dia encontrou a solução para seus problemas: comprar. Comprar roupas e sapatos de marca, sair mostrando suas aquisições por aí, de preferência usando tudo junto e misturado, até em suas idas ao supermercado. Fez “amigos”, arrumou namorado, e parecia estar tudo bem. Apenas parecia.

Começou aos poucos, e terminou de um jeito que todo mundo sabe: o excesso de compras a levou à ruína financeira, e à depressão; chegou o momento em que comprar não satisfazia mais, não preenchia aquele vazio que existia desde o começo em que entrou naquele círculo vicioso, diagnosticado como CBD(compulsive buying disorder)…”

Essa mini-história é fictícia, mas certamente nos porões dos consultórios psiquiátricos é muito mais real do que possamos imaginar. Se tornar um outdoor ambulante não te faz a melhor pessoa do mundo, nem a mais fashion de todas, se que saber. Sair por aí exibindo todas as marcas grifadas no corpo nada mais é que publicidade gratuita; é você, “bancando” a marca, e sem receber um tostão furado por isso. Pelo contrário, do seu bolso sai muita grana.

E é aí que reside o grande questionamento: Realmente preciso adquirir milhões de peças de marca para estar na moda? Preciso sair comprando tudo que vejo feito louca pra ser aceita pela sociedade?

A resposta é meio óbvia: claro que não!


Quem usa grife da cabeça aos pés tem um senso de posse totalmente oposto à noção de refinamento. Muito embora várias peças sejam bonitas, usadas juntas se tornam um conglomerado feio, e brega.

Usar peça de marca dá a falsa ilusão de que você é alguém com elas; porém, elas estampam por todo o seu corpo insegurança, baixa auto estima…você não passa de uma pessoa parte viciada em compras, e parte viciada em grifes. A sensação de comprar algo novo é como uma dose pesada de droga do bem estar putativo, que traz consigo a falsa ilusão de que você é poderosa e está no controle de tudo. E não sou eu quem está dizendo, palavras de profissionais  de psicologia.

Ora, analisemos o ritual de quem sofre desse mal, na compra de um sapato grifado: você não está espiritualmente presente quando paga uma nota num Louboutin. Se estivesse, pararia, e pensaria nos outros 12 pares de sapatos que você tem em casa. Porém não é você que está comandando a situação. Você compra o sapato, e ele passa a morar junto com os 12 que você já tinha. E aí, aquela emoção da compra se evapora. Nesse exato momento, seu espírito afunda. Você se sente vazia, culpada e meio tola por ter uma calça a mais. A lacuna continua lá. A compra não alterou seu dia, nem sua vida. E vamos entrando num processo cíclico, e portanto, interminável.

Eu já tive isso, você já teve isso em alguma passagem da sua vida, querida leitora. Basta se lembrar daqueles dias em que a gente, após um dia cansativo de trabalho disse: eu mereço um sapato novo…a gente vai, e compra. Depois, o vazio. Boa parte das pessoas já experimentou um momento desse na vida, podem acreditar.

Mas quem sou eu para expor defeitos, problemas e deixar tudo isso solto no ar…Vamos pensar juntas em soluções: como não se tornar – ou deixar de ser – um outdoor ambulante? Preciso comprar tudo que vejo pela frente?

Preparei um conjunto de diquinhas que podem nos auxiliar a não cair nessa de compulsão por compras ou marcas:

- Lojas de shopping e de rua nos trazem achados maravilhosos. Muitas vezes suas modelagens são feitas para mulheres da vida real, e não as esqueléticas modelos, que são paradigmas para grandes marcas. Ademais, servem para fazer um mix, equilibrando roupas de grife, e peças criativas achadas “no precinho” por aí;

- A emoção que você sente ao usar um original clássico supera qualquer sensação de usar uma peça “da moda”. Saia à procura de peças vintage(bijuterias também), de acordo com seu orçamento, em brechós. É garantia de preço bom, e qualidade;

- Faça uma geral no seu guarda-roupas, tirando peças que você não usa mais. Faça um brechó, doe, faça a energia circular;

- Bons acessórios dão toque de classe quando adequadamente desenhados para realçar a parte do seu corpo onde eles vão ficar. Nada de sair toda “grifada” por aí. É muito feio;

- Pare de escolher bolsas pelo valor do símbolo de status. Você tem que analisar a maneira com a qual ela completa seu estilo. Faça um mix de bolsas caras e baratas, e mais, procure novos designers, estilistas, aposte numa peça única, diferente;

- AME AS PESSOAS; USE AS COISAS. Para boa entendedora…

- Tire os holofotes de cima de você. Comece a pensar no outro, dê um pouco do seu tempo pra ele, faça algum trabalho voluntário, ou simplesmente seja gentil. Faça alguém feliz;

- Ouse. Faça algo divertido, diferente, inovador. Você vai se surpreender com o resultado;

- Aprenda a querer o que tem. Escreva uma lista de agradecimentos. Não tenha medo de ser brega. Brega é ser mal educado, é gastar o que não tem, é “comprar” amigos. Gaste dois minutinhos da sua vida todos os dias, e escreva 5 coisas que você tem que a deixam feliz: Cabelo lindo, um filho maravilhoso, um bom marido, um bom trabalho, uma amiga do peito, uma titulação, um cachorrinho fofo, uma mãe perfeita…tem tanta coisa, né? Já já você terá um enorme rol, e poderá contar a todo mundo a vida incrível que você tem!

- E se você acumulou dívidas no cartão, ou cheque, procure ajuda, seja em sites de economia, seja indo a um terapeuta profissional. Compulsão por compras vai muito além de dinheiro. É sinal de que tem alguma lacuna na sua vida a ser preenchida, e você precisa ser auxiliada, e descobrir o que falta.

Well, espero que essas dicas ajudem muito, e digo desde já que não quero ser aquela chata que pede pra vocês pararem de comprar. De jeito nenhum! Todas nós temos um pouquinho da moça da foto acima!

Só quero que vocês, leitoras que são umas jóias, não se deixem levar por blogs que empurram um mundo maravilhoso – e inesgotável – de compras, as influenciando, e ao mesmo tempo as fazendo se sentir “menos gente” por não poder comprar uma bolsa Céline, ou um sapato grifado. Vocês são bem mais que uma bolsa estampada com LV por todos os lados: são mulheres e meninas inteligentes, sonhadoras, criativas, que andam tão lindas quanto as “grifadas” gastando menos, e buscando nos próprios guarda-roupas(bem como nos das mães e avós) um jeito de ter estilo único!

13 Comentários para “Outdoor humano? Não, obrigada.”

    Gravatar Luana
    22 maio 2011

    Parabéns pelo post!!!
    Excelente!


    Gravatar Magda Michelle
    22 maio 2011

    Não conhecia o blog, mas já estou seguindo. Adorei o post, me fez refletir, realmente muitas vezes somos influenciadas por esse mundo de compras e grifes.
    http://www.makefeita.blogspot.com/

    Rose Reply:

    Que bom que você gostou, Magda. Praticamente, todos os blogs mais parecem ter publiposts que posts feitos do coração, tamanha é a comercialização dentro deles. Mas cabe a nós parar e refletir se precisamos de tudo que eles mostram, né?
    Beijos!


    Gravatar Ayany
    22 maio 2011

    Amei o post, Rose.
    Hoje eu penso assim, mas já tive dias tensos, de compulsão por compras. Mal sabia eu que estava tentando esconder um vazio imenso que estava tentando tomar conta de mim. Procurei ajuda e encontrei-a no meu “bofe”, rsrsrs. Ele me ensinou o sentido de querer de algo e necessitar algo. Agora, antes de qualquer coisa eu penso, ” eu quero isso, mas eu necessito disso?”. É bem por aí…

    Beijo!

    Rose Reply:

    Pois é, Ayany, muitas vezes é necessário praticar o desapego do consumo.
    Muitas coisas são tão desnecessárias, que você vivia super bem antes de tê-las. Mas essa doutrina consumista, após a aquisição do produto, nos torna reféns dessas coisas.
    Beijos


    Gravatar Viviane Fernandes
    24 maio 2011

    Um dos, se não o melhor post… parabéns!!


    Gravatar Helena
    24 maio 2011

    Ficou lindo o post!!!
    Super verdadeiro. Vou começar minha lista de hoje:
    Tenho uma amiga linda que volta ao trabalho amanhã: Rose!!! Oba!!!!
    :*

    Rose Reply:

    Helen,
    Seis da manhã já estarei por lá. Começar meu mês escravizado! hahahaha


    Gravatar Graça Galvão
    28 maio 2011

    Rose adorei seu blog…..dicas maravilhosas!


    Gravatar Aline
    2 junho 2011

    Nossa, que bacana, virei sua amiga desde já, é óbvio que sonhamos com tudo que as marcas tem para nos oferecer, algumas tem tanta qualidade que dá gosto, porém não podemos ser escravas delas, é isso que elas querem, mentes fracas, para se alojarem, é assim que ganham dinheiro. Rose, parabéns, amei o seu texto, se puder, gostaria de postá-lo em meu blog, com direitos autorais a você, claro…
    [email protected]


    Gravatar Rose
    2 junho 2011

    Claro, Aline!
    Dados os devidos créditos, pode postar no seu blog, sem problemas. Quanto mais pudermos disseminar essa ideia, melhor. Conscientizar as meninas, né?
    Beijos!


    Gravatar Cintia
    2 julho 2011

    Rose,
    Tenho acompanhado os seus posts há pouquíssimo tempo, mas esse ficou muito bom. Realmente serviu até para mim que, de certa maneira, adoro uma grife. Se importaria de eu recolocar em forma de post no meu blog, com os créditos para você? Achei muito bom mesmo.
    Um beijo e sucesso!
    Cíntia


    Gravatar magah santana
    26 janeiro 2013

    Li esse post em boa hora pois jà começa a pensar em procurar ajuda especializada. Eu que sempre fui mão de vaca e pensava umas trocentas vezes antes de comprar algo desnecessário vi-me entrando num círculo vicioso de compras. Só para dar uma ideia do início de janeiro até hj eu comprei quatro calças duas delas preta, três saias, três camisas e duas blusas além de dois sapatos e um vestido. Estava precisando? Não. Foi só o prazer em comprar experimentar e guardar. Hoje já vi-me na absurda necessidade de mais uma vez passar o cartão e só não o passei por que a peça em questão não serviu. Internet era fonte de leituras diversas, bate papo com amigos e familiares que moram longe além de joguinhos (amo) ultimamente passo horas e horas em lojas e brechós virtuais.


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